Segunda-feira, 19 de Maio de 2014

RECORDANDO QUITÉRIA ROCHA BARBOSA

“Miquelina” – património com alma

 

 

Fará no dia 26 deste mês um ano que faleceu Quitéria Rosa da Rocha Barbosa, a histórica matriarca da família que deu alma e fama a essa verdadeira instituição de Paredes de Coura que é o Restaurante e Pensão “Miquelina”.. Assim, homenageando a memória da criadora do célebre “Bacalhau à Miquelina”, querida senhora que nos deixou aos 91 anos de idade, este trabalho pretende dar à estampa um pequeno historial da secular casa que marcou uma época na região Norte de Portugal. Comecemos pelo princípio.

Diz Narcizo Alves da Cunha na sua monografia, quando fala de uma viagem ao monte Carvalhal: “No regresso viemos ao moinho do Túmio para tomarmos em Cunha o carro que nos levará à Vila, onde nos espera a hospedagem da senhora Miquelina que manda servir aos seus hóspedes abundantes e suculentas refeições (…) quer que a sua clientela coma bem”. Mas afinal quem era esta afamada cozinheira? Miquelina Rosa de Azevedo nasceu em 1852 na freguesia de Ferreira. Anos mais tarde viria a casar com o negociante formarizense José António Rodrigues.

A sua actividade hoteleira começou com uma pequena casa de vinhos e petiscos, que se localizava na antiga barraca, onde actualmente se situam as instalações do Banco Totta. Em 1891, o casal construiu o edifício onde hoje conhecemos o Restaurante e Pensão “Miquelina”. Cedo os dotes culinários de Miquelina deram que falar e em busca das melhores iguarias convergiam para o “Hotel” (assim foi vulgarmente conhecida a casa durante décadas e décadas) indivíduos de todo o Norte de Portugal e da vizinha Galiza. Deve lembrar-se que Paredes de Coura era ponto obrigatório de passagem das diligências que se dirigiam de Sul para a Galiza e vice-versa. Em 1900 faleceu José Rodrigues, tendo a viúva recorrido aos préstimos do irmão Amaro e, claro, das dedicadas empregadas Maria Brandão e Rosa Virges. Uma vez que Miquelina Azevedo não tinha descendentes viria a legar o seu património a estas empregadas, reconhecendo o labor que as suas funcionárias haviam desenvolvido em prol da casa. Faleceu em 16 de Janeiro de 1926, altura em que as novas proprietárias assumiram a gerência. A propósito da sua morte, dizia o jornal “O Courense”: “Era uma boa criatura (…) muito esmoler, condoendo-se de todos os infortúnios, para os quais nunca se tornava insensível o seu coração, deixando por isso as maiores saudades”. Os anos que se seguiram ao desaparecimento de Miquelina não foram famosos, pois durante a gerência dos seus herdeiros reinou o mal-estar e a indisciplina. A casa perdeu alguma da notoriedade.

Até que, em 1928, surgiu um homem que viria a relançar decisivamente o estabelecimento. Falamos de João Barbosa, natural de Cossourado, anos de vivência no ramo dos comes e bebes em Lisboa, homem que mais tarde viria a ficar conhecido como o João do Hotel. Casou com Maria Brandão e assumiu com acerto e rigor a gerência da “Miquelina”. Dinamizando e reafirmando a inigualável cozinha da casa, João do Hotel não tardou em adquirir as partes dos outros herdeiros (onde ainda se incluía Amaro, o irmão da falecida), ficando com a totalidade do edifício.Mas outra viragem viria a acontecer na história da casa.

E é aqui que surge Quitéria Rosa da Rocha Barbosa. Maria Brandão morre prematuramente e João do Hotel, que não tinha filhos deste casamento, casa em segundas núpcias com a senhora que nos deixou há um ano. Então surge uma nova época em que a “Miquelina” refulge como nunca. João e Quitéria alargam a fama da casa a todo o país.

 

Quitéria faz do bacalhau e da famosíssima carne assada (há lugar para ela ainda hoje no imaginário de qualquer courense acima dos 40 anos de idade) os reis de Coura. Do casamento nasceriam os filhos Emília, Martinha, Céu e Manuel. A estes e aos genros do casal viria a ser entregue a exploração do negócio, a partir do ano de 1975. João do Hotel, que morreu em 13 de Fevereiro de 1982, não deixou, no entanto, um dia que fosse de acompanhar as lides da pensão e do restaurante, com a paixão de sempre.

Entretanto, a propriedade passou a ser dividida pelos casais Emília e Júlio Silva; Martinha e Nelson Cunha Lima e Manuel e Sónia Alves, que acabariam por efectuar profundas remodelações no estabelecimento, construindo ainda o edifício onde presentemente está situada a “Casa Forte”.

 

Em 1991, devido a alguma saturação entregaram à exploração o restaurante, mantendo-se, porém, firmes na gerência da pensão. A “Miquelina” é parte significativa da seiva que tem alimentado a identidade de Paredes de Coura. Nela sempre se cruzaram classes sociais, sem preconceitos de qualquer espécie. Os mais humildes lavradores das nossas aldeias por lá se sentavam na mesma mesa dos mais abastados e letrados. Diz-se até que Aquilino Ribeiro terá escrito grande parte da sua “Casa Grande Romarigães” na mesa do fundo, à esquerda, junto à cozinha. Enfim, para várias gerações de courenses, recordar a “Miquelina” é lembrar o papel decisivo que nela tiveram João e Quitéria Barbosa. Não esquecendo nunca, que a pensão e o restaurante ainda continuam bem vivos, recomendando-se, também, para quem quiser matar saudades.

Publicado em 24 de Maio de 2005, no Jornal Notícias de Coura

Publicado por Eduardo Daniel Cerqueira às 16:59
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1 comentário:
De olimac a 19 de Maio de 2014 às 19:03
Meu falecido pai, quando veio para Coura, deu muitas consultas na saleta por cima da sacada a quem dele recorria

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